PODER

O(s) dia(s) em que FHC atuou como ‘ombudsman’ da Folha de S. Paulo

Conta a Folha de S. Paulo:

Para FHC presidente, a Folha distorce e faz uma campanha de “desmoralização”. Em dezembro de 1995, FHC está inconformado com as colunas de Josias de Souza e de Clóvis Rossi sobre o banco Nacional que, falido, recebeu ajuda do governo.

Segundo Josias, foi um “negócio da China”, que custou aos contribuintes, R$ 4 bilhões na época. “Sob Fernando Henrique, uma banca falida pode fazer misérias”, escreveu. Rossi lembrava que uma parente do presidente integrava a diretoria do Nacional (era a nora de FHC).

Ofendido, o presidente conta ter ligado para Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal (morto em 2007). Ameaçou não participar da cerimônia de inauguração do parque gráfico da Folha. “Frias disse que ia fazer os dois engolirem, e fez. Hoje, domingo, ambos escrevem no jornal desdizendo-se”, afirma o presidente.

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BBC AMÉRICA

Nova vida e mais séries britânicas

50% da subsidiária norte-americana da estação de televisão pública britânica foi comprada pelo canal norte-americano AMC.

O fascínio do público norte-americano por tudo o que venha de terras de Sua Majestade não se esgota na curiosidade pela família real britânica.

Quando, em 2011, 22,8 milhões de norte-americanos assistiram ao casamento real do príncipe William com Kate Middleton (cuja transmissão na costa este começou a horas quase impróprias para consumo: às seis da manhã), as estações de televisão da terra do Tio Sam perceberam que havia um filão por explorar.

Os 10,2 milhões que em janeiro assistiram à estreia da quarta temporada da série de época Dontown Abbey, na PBS, estabeleceram um recorde para o canal público de televisão norte-americano e vieram confirmar a mesma ideia.

No final de outubro, o canal de séries norte-americano AMC comprou 49,9% da BBC America (subsidiária da casa-mãe britânica) por 160 milhões de euros, dando o primeiro passo na concretização de uma estratégia clara: oferecer ao público norte-americano mais séries produzidas com a chancela BBC.

Lançada em 1998, a BBC America é um canal de cabo que, ao contrário dos canais BBC a operar em território britânico, não é financiado pela licence fee (o equivalente à nossa taxa de audiovisual), dependendo do dinheiro gerado pelos espaços publicitários e pelas receitas provenientes das licenças das operadoras de cabo e satélite.

O canal está, desde agosto de 2013, disponível em 80 milhões de lares no território norte-americano. Um dos produtos estrela da BBC America é Orphan Black, série de ficção científica produzida no Canadá. Sherlock, protagonizada por Benedict Cumberbatch, Doctor Who e o já clássico Top Gear, programa dedicado ao mundo automóvel, são outras das produções BBC exibidas na BBC America. A decisão do AMC, canal criado em 1984 e que já produziu séries de êxito como Breaking Bad e Mad Men, é levar mais longe a parceria já existente com a estação pública de televisão britânica.

Tim Davie, diretor executivo da BBC Worldwide (empresa que fica a deter 50,1% das ações da BBC America), explica que o AMC é o “parceiro ideal” para catapultar a BBC America para uma nova fase. “Eles estão empenhados em produzir conteúdos de alta qualidade, imperdíveis, que fazem que a BBC America tenha um dos públicos mais cultos e fiéis de toda a televisão norte-americana”, disse o responsável da BBC Worldwide.

Alguns exemplos de coproduções do AMC com a BBC são a série Top of The Lake (coproduzida com a BBC Two e que, em 2013, foi nomeada para cinco prémios Emmy) ou The Honourable Woman (uma produção da BBC para o Sundance TV, canal de filmes indie que pertence ao grupo AMC Networks). Com a compra de quase metade das ações da BBC America, o AMC fica assim com direito de decisão na escolha de novas produções para o canal, do espaço publicitário e na gestão operacional da empresa.

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Texto publicado pelo jornal português “Diário de Notícia” em 30 de novembro de 2014.

BUSINESS

NBC paga US$ 7,6 bilhões para ter Olimpíada e bate recorde

A NBC acertou novo contrato de transmissão dos Jogos Olímpicos nos Estados Unidos. Para ter o direito exclusivo no país sobre as Olimpíadas que serão realizadas entre 2021 e 2031, a NBC pagou ao COI (Comitê Olímpico Internacional) a bagatela de US$ 7,65 bilhões — algo em torno de R$ 17 bilhões.

O acordo vale para todas as plataformas: TV aberta, TV fechada, internet e celular. No período está prevista a realização de seis edições olímpicas: Jogos de Verão de 2024, 2028 e 2032,e Jogos de Inverno de 2022, 2026 e 2030. Além disso, serão organizadas outras seis edições de Jogos Olímpicos da Juventude, sendo seis de inverno e seis de verão.

“O acordo é uma grande contribuição para a estabilidade financeira a longo prazo do movimento olímpico inteiro. O COI distribui mais de 90% da receita que gera para apoiar as federações esportivas internacionais; os 204 Comitês Olímpicos Nacionais e suas equipes olímpicas; e os comitês organizadores de cada Jogos Olímpicos”, comemora o COI.

Em 2011, a NBC já havia acertado a compra de três edições olímpicas: 2014 (inverno), 2016 (verão), 2018 (inverno) e 2020 (verão). Na ocasião, pagou US$ 4,38 bilhões.

Com o novo acordo, vai completar 66 anos transmitindo os Jogos com exclusividade para os EUA, uma vez que faz isso desde Tóquio/1964. Na ocasião, fez, na Cerimônia de Abertura, a primeira transmissão em cores via satélite na história da TV. Via Estadão.

CONVERGÊNCIA

| Daniel Vasques |

Na TV americana, um dilema: como salvar a análise política do fim de semana?

Não é de hoje que os americanos são loucos por política. Há décadas, nas manhas de domingo, as três principais redes de televisão dos Estados Unidos apostam em programas de debates e entrevistas com líderes internos e internacionais. É ali que, muitas vezes, são anunciadas medidas – como a defesa de Obama ao programa de saúde “Obamacare” – ou discutidas crises globais como a recente anexação da Criméia pela Rússia em uma verdadeira volta aos tempos da Guerra Fria.

Juntos, “Meet the Press” (NBC), “Face the Nation” (CBS) e “This Week” (ABC) somam aproximadamente 10 milhões de telespectadores.

Pode parecer muito. Mas numa era em que a informação é descartada a cada novo clique, o futuro já não é mais como era antigamente.

E no caso da NBC ele não vislumbra ser nada bom. Se em fevereiro o “Meet the Press” foi líder à frente da ABC e CBS, na semana passada o show caiu para um distante terceiro lugar (2,65 milhões de telespectadores) repetindo o que já havia ocorrido no terceiro semestre do ano passado.

Rápida como uma conexão de 10 gigas, a emissora resolveu agir. E buscou na internet o que pretende, ironicamente, ser a salvação para o programa de televisão.

Na quinta-feira, 20, a NBC News lançou o “Meet the Press: Express”, uma série de vídeos digitais disponibilizados no meio da semana e que contam com um grupo rotativo de jornalistas da rede em Washington.

A novidade vem na sequência de uma série de conversas curtas no Twitter (“Tweet the Press”) e de entrevistas (“Press Pass”) para o “Meet the Press 24/7”, a página do programa na internet.

Com o mundo — e a mídia — em constante transformação, o canal busca adaptar-se ao novo cenário digital, onde potenciais espectadores não estão conectados apenas na manhã de domingo, explica o apresentador David Gregory.

— Nós queremos ser capazes de atingir o público de formas diferentes. Eu sei que há um monte de pessoas mais jovens assistindo ao programa ou assistindo clipes do programa. Queremos alcança-las de diferentes maneiras — declarou ao Huffington Post.

A questão que fica é se, em plena era digital, o “Meet the Press” e seus similares serão capazes de manter acesa a discussão até o próximo domingo.

MEMÓRIA

Rede Manchete, uma história
para não esquecer

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Adolpho Bloch costumava dizer que em suas veias corria tinta de impressão. Era, acima de tudo, um gráfico. Com o sucesso obtido nessa atividade tornou-se um dos principais empresários da comunicação brasileira – e foi por aí que o desafio da mídia eletrônica entrou em sua vida.

A princípio, ele se recusava a idéia, alegando que já estava com mais de 70 anos, bem-sucedido nas artes gráficas e na editora. Contudo, a necessidade de se alinhar na mídia eletrônica obrigou-o a pleitar e obter a concessão para explorar cinco canais de TV que estavam em licitação.

A partir desse instante, todas as suas energias concentraram-se em montar a sua rede. E como não sabia fazer nada sem entusiasmo e competência, em pouco tempo adquiriu o equipamento mais sofisticado da época, tudo última geração, tornando a Rede Manchete a mais bem aparelhada do mercado.

Paralelamente, armou uma equipe de diretores, técnicos e artistas que, desde o dia da estréia, 5 de junho de 1983, tornou-se a segunda rede em audiência e faturamento, abrindo um mercado de trabalho que foi ampliando nos anos seguintes.

Era uma TV Classe A, com  o compromisso de elevar o padrão do entretenimento e da informação. O “Jornal da Manchete”, dirigido inicialmente por Moysés Weltman e Zevi Ghivelder, logo foi aclamado como o melhor da mídia brasileira, abrindo espaço condizente à notícia, deixando de ser mera sucessão de chamadas.

Por anos seguidos, o noticiário da Rede Manchete foi considerado pela crítica especializada como o melhor da TV brasileira, ganhando prêmios e sendo um referencial de qualidade e isenção. Na outra perna da programação, a prioridade foi criar programas de impacto no setor do divertimento. Uma jovem modelo, que habitualmente posava para as capas das revistas do grupo Bloch, foi escolhida para comandar o programa infantil das manhãs.

Não faltaram os entendidos que condenaram a idéia de tornar um de nossos símbolos sexuais a animadora de um programa de crianças. Acontece que Xuxa não apenas mudou a dinâmica desse tipo de programa: ela própria mudou e se tornou na personalidade feminina mais conhecida da atualidade brasileira.

A concorrência reagiu e Xuxa deixou um vazio logo preenchido por outra descoberta da Rede Manchete, uma menina com uma pinta na cocha que imediatamente se tornou líder do público infantil. Angélica deslanchou de forma fulminante e manteve aquilo que já era tradição na Manchete: criar uma atração nova e manter audiência no mesmo nível da antecessora.

Momento importante na história da Rede foi o carnaval de 1984, que inaugurou o Sambódromo do Rio de Janeiro. Aproveitando um erro de avaliação da concorrente principal, que não acreditava no sucesso da passarela nova, a TV Manchete deu um show de técnica e entusiasmo, ultrapassando pela primeira vez a liderança de pontos do Ibope.

Animado com a façanha, Adolpho decidiu criar o núcleo de telenovelas, que inicialmente não estava em suas cogitações.

Era uma jogada temerária uma vez que invadia o território mais forte e incontestável da líder do mercado. Era necessário criar um diferencial, tanto no visual como na história. Seguiram-se então três novelas de época que marcaram época na televisão brasileira: “A Marquesa de Santos”, “Dona Beija” e “Kananga do Japão”.

Nos momentos de pique, as três lideraram o Ibope e precederam “Pantanal”, que foi considerada a melhor novela do período e até hoje é citada, aqui e no exterior, como  uma das melhores realizações da teledramaturgia brasileira.

Tanto “Kananga” como “Pantanal” abriram de forma surpreendente o público das novelas. Gente que habitualmente não apreciava o gênero passou a se interessar pelos dois sucessos. O primeiro, com a estupenda realização do fundo histórico centrado nos anos 30.

Na semana em que foram exibidos os capítulos relativos ao caso de Olga Prestes, a liderança foi absoluta. Intelectuais, artistas e o próprio Luís Carlos Prestes comoveram-se com a novela.

No caso de “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa, com direção de Jayme Monjardim, foi criada uma nova estética para o gênero, com grandes planos externos pontuando uma história tipicamente brasileira.

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Adolpho dava grande importância aos programas especiais e contratou uma turma independente, de peso, a trinca formada por Fernando Barbosa Lima, Roberto D’Ávila e Walter Salles. Foram produzidos programas de grande repercussão, como o especial dedicado ao Japão, de Waltinho Salles, onde o jovem diretor recebia seus primeiros prêmios e preparava o vôo para o cinema que o consagraria.

Roberto fez uma série de entrevistas que nunca se imaginavam possíveis na modorra jornalística até então existente. Entrevistas com Fidel Castro, Federico Fellini, Marcello Mastroianni, Gabriel Garcia Márquez e tantas outras imprimiram uma dimensão nova ao jornalismo televisivo.

Na parte política, além de documentários importantes sobre JK e Vargas, Manchete foi a primeira a cobrir os comícios pelas Diretas Já, desde o início daquele movimento que cresceu e, somente ao final, foi absorvido pelas concorrentes como um dos fatos mais emblemáticos de nossa recente história.

Na parte esportiva, Manchete cobriu todas as Olimpíadas, Copas do Mundo e torneios realizados durante o período. Enviou grandes equipes ao exterior. Deu especial ênfase a cobertura do tênis, esporte até então desprezado pela mídia nacional. Gustavo Kuerten, hoje em ascensão mundial, teve o início de sua popularidade garantido pela Rede Manchete.

A situação nacional, contudo, apresentava sinais de turbulência no setor financeiro. Cinco planos econômicos e cinco moedas diversas sucederam-se de forma abrupta, desestabilizando empresas e impedindo projetos de longo alcance.

Adolpho perdeu o entusiasmo em operar em um cenário que ele não aceitava. Sua força era o trabalho, a competência, o otimismo. Não entendia a especulação, a política dos juros altos. Embora gostando de sua TV ele procurou vende-la, para se dedicar apenas à editora. Vendeu a Rede a um grupo que não honrou o protocolo de intenção da compra – o que lhe causou prejuízos adicionais.

Obteve da justiça a gestão da Rede e voltou a trabalhar nela com o empenho possível. Com 87 anos, a saúde em declínio, ele ainda conseguiu sucessos, investiu em um grande terreno em Maricá, onde construiu uma incrível cidade cenográfica que serviu de cenário para sua última história, a novela “”Xica da Silva”.

Com sua morte, em1995, aRede Manchete perdeu seu líder, o seu centro de gravidade. Com a aprovação do governo, e dentro das normas legais, seus sucessores preferiram passar a concessão dos cinco canais a terceiros, decididos a dar continuidade ao trabalho de Adolpho na editora que brevemente começará uma fase de modernização e ampliação de objetivos.

A Rede Manchete, que agora passa a ser operada por novos donos, soube ser um dos grandes momentos que marcaram a história do nosso tempo.

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Texto de Carlos Heitor Cony, publicado na “Revista Manchete”, em maio de 1999, após a transferência do controle acionário da Rede Manchete para o grupo TeleTV, de Amílcare Dallevo Jr., atual RedeTV!.

‘BRAZIL AVENUE’

| Daniel Vasques |

Globo mira mercado hispânico
e investe em coproduções

Foi “ablando español” que em 1973 Odorico Paraguaçu levou à Tele Doce do Uruguai a sua obsessão: inaugurar ”duela a quien duela” o cemitério de Sucupira. Era ”O Bem Amado”, da Globo, cavando o terreno do que viria a ser uma das principais fontes de renda da emissora nas décadas seguintes: o mercado internacional.

40 anos depois, a emissora coleciona sucessos como “Terra Nostra”, “Da Cor do Pecado” e “O Clone”, exibidas em dezenas de paises – clique aqui para ver as novelas mais vendidas para o exterior. Mas já não vende como antes. Outras gigantes da teledramaturgia mundial dominam o segmento, como a Televisa do México. Muito provavelmente beneficiada pelo idioma e narrativas de suas histórias universais.

Mas nem mesmo em Portugal, conectado ao Brasil pelo idioma, a vida tem sido fácil. Já vai longe o tempo em que as novelas brasileiras dominavam além-mar. Na SIC, emissora que mantém contrato de exclusividade com o canal da família Marinho, das seis novelas em exibição, apenas a metade é da Globo — “Fina Estampa”, “Avenida Brasil” e a reprise de “Páginas da Vida”.

Nem o sucesso recente de “Gabriela”, novela de maior audiência do lado de lá nos últimos dez anos, fez com que a SIC tirasse da pratileira títulos rescentes como “A Vida da Gente” e “Cordel Encantado”, ainda hoje inéditos no país. Ou ”Guerra dos Sexos” e “Aquele Beijo”, que mesmo com artistas portugueses no elenco, ficaram restritas a TV a cabo.

O PAÍS DO FUTEBOL

Produções recentes como ”Avenida Brasil” e “Cheias de Charme” continuam a receber o devido destaque em feiras internacionais como a Natpe, em Miami. Mas esbarram não só na dublagem – para atingir diferentes mercados, o espanhol muitas vezes é enfadonho – como nas diferenças culturais que fazem com que a maioria dos sucessos não ultrapasse o quintal de casa.

Apesar disso, externamente, as tramas brasileiras também são famosas por se transformarem em “obsessão nacional” como aponta o jornal “L.A. Times”, dos Estados Unidos. Em uma extensa reportagem, a publicação analisa o fenômeno “Avenida Brasil”, a começar pela presença da classe média nos núcleos centrais.

– “Nada chama mais a atenção do Brasil que suas telenovelas”, diz o texto. “Exceto talvez a Copa do Mundo, nada junta mais o país que seus dramas bem polidos de grande orçamento.”

EXPORTAÇÃO

E se reconhecimento é sinônimo de know-hall, a Globo sabe aproveitar isso melhor do que ninguém. Daí, foi um pulo para as coproduções internacionais.

A fórmula é simples: os roteiros e as marcas das novelas são vendidos juntos com um pacote de consultoria que inclui cenários, figurinos, texto e direção. Tudo é supervisionado. Até mesmo técnicas de interpretação. Ao comprador cabe adaptar o formato, contratar elenco e pagar pela produção. Algo semelhante ao que Televisa e Record colocaram em prática e com relativo sucesso até bem pouco tempo no Brasil com ”Bela, A Feia” e “Rebelde”.

Em Portugal ela começou a ser testada em 2011. Cansada de colecionar fracassos em sua teledramaturgia, a SIC decidiu firmar acordo com a Globo, parceira de longa data. Embora baseada em um argumento original, ”Laços de Sangue” contou com supervisão do autor Agnaldo Silva e de quebra faturou o Emmy Internacional de melhor novela.

Mas ainda faltava a liderança. E sem perder tempo, a emissora apostou em uma obra consagrada: o remake de “Dancin’Days”. A audiência foi nas alturas. Líder em todos os targets comercias, “Dancin`Days” acabou com a hegemonia das tramas da concorrente TVI. No último dia 13 alcançou mais de 1,8 milhão de telespectadores e 37% dos televisores ligados.

ERROS E ACERTOS

Parece simples, mas para chegar até aqui foi preciso testar a fórmula. E assimilar erros como os de  ”Vale Todo” (2002). A história da mãe traída pela filha, baseada no original de 1988, de Gilberto Braga, provocou rejeição no público latino da Telemundo, emissora dos Estados Unidos, e que costuma ver a figura materna com respeito e gratidão. Os relacionamentos extraconjugais também não cairam no gosto dos hispânicos. E a novela, inicialmente programada para durar seis meses, acabou encurtada em um terço.

Walter Negrão, que assumiu a adaptação do roteiro a partir do capítulo 30, acredita que a escolha de uma novela extremamente brasileira como “Vale Tudo” foi o principal erro.

– “Uma trama falada em espanhol que se passa no Rio de Janeiro causa um certo distanciamento. Se tivesse participado desde o início, teria ambientado a novel em Miami mesmo que as gravassões fossem aqui”, declara.

Uma correção que viria a ser feita anos mais tarde. Mesmo gravada na Colômbia, “El Clon” (2010) baseada no original de 2001 de Gloria Perez, se passava entre Miami e Marrocos. A história do amor impossível entre Lucas e Jade também era extremamente universal. A novela foi um sucesso e chegou a ser prolongada ficando mais de oito meses no ar. Além dos Estados Unidos, foi exibida em praticamente toda a América Latica, inclusive no México pela Televisa.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Se o futuro está nas coproduções, não resta dúvida de que o gênero é o principal responsável pela perpetuação da espécie. Prova disso é que novas adaptações estão por vir. Ou alguém duvida que além de Pererón e T.C. Palmer, em breve, os gringos estarão encantados pelas loucuras de Carmiña e os dramalhões de Mamá Lucinda?

– “Sírvame, zorra!”

SIC FAZ DEZ ANOS

A década que reinventou a televisão portuguesa

Há dez anos, Portugal deixou de ver televisão a uma só voz. Quando a SIC foi para o ar, a 6 de outubro de 1992, o cidadão e os seus problemas estavam arredados dos ecrãs e o directo na informação era raro. Não havia canais por cabo — apenas uma elite tinha antena parabólica — e grande parte dos televisores não tinha telecomando. Era como se o mundo fosse a preto e branco.

Dez anos de canais privados abriram caminho à inovação e à democratização da informação. ,as a dessacralização da TV não foi obtida sem mácula. Cometeram-se excessos e, as mais das vezes, sobretudo em horário nobre, sacrificou-se a qualidade em nome das audiências. A televisão pública — que ficou sem a taxa — perdeu a batalha com a concorrência e entrou numa decadência que sucessivos governos foram incapazes de travar.

— “O país mudou nos anos 90 em grande parte devido à televisão”, sustenta Joaquim Vieira, presidente do Observatório da Imprensa e director de programas da RTP em 1996.

Essa mudança na apreensão dos acontecimentos, segundo este jornalista, pode ter reflexos na apreciação que os portugueses fazem dos políticos. Da quase infindável listas de mutações que Emídio Rangel, fundador da SIC, enumera, há uma que salta à vista.

— “Mudou o conceito de mensagem única, própria dos regimes ditatoriais.”

O ex-director adjunto de programas da SIC, António Borga distingue nesta década dois momentos: um de 1994 até 2000, e outro desde essa data. Naquele primeiro período, a televisão em Portugal passou por uma verdadeira revolução e um crescimento muito acentuado no aspecto técnico, criativo e empresarial, afirma aquele que foi o braço direito de Rangel na SIC e agora trabalha na RTP. Estabeleceu-se com o público uma relação com a televisão que não existia.

— “Nos últimos dois ou três anos, a pequena constipação do mercado publicitário, que, em alguns casos, levou ao pânico de empresários das televisões privadas, aliada à ausência de uma política integrada de apoio do Governo ao audiovisual, conduziu a decadência que se vive hoje no sector”, observa o mesmo responsável.

José Eduardo Moniz, diretor-geral da TVI, também realça uma atitude nova de relacionamento com o espectador como um dos marcos na história da televisão privada em Portugal. O outro, adianta, é uma maneira mais ousada, livre e independente de fazer informação.

Mas, na opinião do homem que estava à frente da RTP quando a SIC foi para o ar, as privadas vieram consolidar um clima que já se sentia, três anos antes, na maneira de fazer informação e programação.

A maioridade do jornalismo televisivo

A inovação, o pluralismo, a agressividade e a maior proximidade aos cidadão encetados na informação televisiva são, sem dúvida, as virtudes de dez anos de televisão privada.

— “Esta televisão de proximidade que temos deve-se muito à SIC”, sustenta Felisbela Lopes, uma universitária que estudou os telejornais de serviço público antes do aparecimento da iniciativa privada.

Joaquim Vieira também destaca como importante o facto de as privadas terem oferecido uma alternativa ao que era mais oficial.

— “A informação televisiva passou a ser mais agressiva e questionava o poder, o que teve consequências. Agora, os políticos organizam a sua agenda em função da televisão.”

A ausência de programas de debate regulares em directo, o aflorar de assuntos tabu, a oferta de novos géneros — como o docudrama — e o acesso à televisão por parte de uma corrente de opinião e de cidadãos anónimos levam António Borga a afirmar que foi só com a televisão privada que o jornalismo televisivo atingiu a maioridade.

— “Antes andava a reboque da imprensa.”

Emídio Rangel destaca de igual modo o choque que a SIC causou na abordagem noticiosa face a uma estação que favorecia o critério político-ideológico, o que trouxe altos benefícios para a democracia.

— “A RTP era uma televisão governamentalizada e manteve-se assim durante alguns anos.”

As novas linguagens e formas de expressão visual são aspectos que Felisbela Lopes sublinha.

— “Se os canais não fossem identificados, distinguiríamos claramente uma reportagem da SIC”, refere a investigadora da Universidade do Minho, lembrando também que aquele canal inovou pelo cenário, ao ser a primeira a mostrar os bastidores.

Se todos aplaudem a lufada de ar fresco na informação televisiva, não falta porém quem aponte atropelos cometidos e a tendência para a “tabloidização”. Joaquim Oliveira não tem dúvidas de que há uma inversão do que são as notícias importantes.

— “Primeiro vêm os fait-divers, o futebol e só depois o que interessa à sociedade.”

Aponta ainda o prolongamento indefinido dos telejornais e o abuso dos directos, quando muitas vezes não existe informação no local, sinal do que diz ser um novo-riquismo da informação.

Felizbela Lopes aponta como preocupante a tendência para o sensacionalismo, a diluição de fronteiras entre a realidade e a ficção — dá o exemplo do programa da SIC “Cadeira do Poder” –, e, por outro lado, o aproveitamento desmesurado das emoções. Por exemplo, num caso de uma violação, prefere-se ouvir a vítima do que um médico ou psicólogo.

José Alberto Carvalho, jornalista que há dez anos deixou a RTP para dar a cara pela SIC, lembra ainda que o canal privado, a dada altura, tornou-se quase sinônimo de polícia.

— “Quando as pessoas se sentiam enganadas, eram mal atendidas num serviço público ou estavam descontentes numa empresa diziam: ‘Vou chamar a SIC’, o que é uma perversão das funções de cada entidade, mas também revela o despertar da consciência cívica.”

Produção nacional ultrapassa brasileira

Para lá da informação, as televisões privadas abriram horizontes na programação, desfizeram tabus , não sem cometerem excessos. A última década destronou o império da telenovela brasileira como o principal garante da audiência e revelou a ascensão da ficção portuguesa (ou pelo menos feita com portugueses). A obreira desta mudança foi a TVI, que inaugurou ainda em Portugal o formato considerado mais revolucionário dos últimos anos — o “Big Brother”.

Mas foi a SIC, recorde-se, que em meados da década, estreava os antecessores daquele reality show com programas como “Perdoa-me” ou “All You Need Is Love”, na medida em que o cidadão comum expunha a sua vida privada e se tornava num herói televisivo, ainda que por instantes.

Foi ainda a SIC que criou programas como o de João Baião que, a certa altura, se tornou num símbolo do que era considerado uma certa programação “pimba” do canal.

— “As privadas trouxeram novas formas de entretenimento que até ofuscaram um pouco o salto na informação, mas que foram importantes, porque foi dado um impulso à ficção e produção nacional”, diz António Borga. Evoca as séries de ficção adaptadas, como “Médico de Família”, e as originais, como “Capitão Roby”.

Das novas linhas de entretenimento que surgiram com as privadas e de uma programação que quebrou espartilhos e teias de aranha, Emídio Rangel recorda o “Chuva de Estrelas”, um programa aparentemente banal, mas que fez mexer o país, o “Ponto de Encontro”, amaldiçoado no início e que depois serviu para teses de licenciatura, e o “Casos de Polícia”, que também começou amaldiçoado e um ano depois era uma referência.

Sem deixar de mencionar o “Big Brother” pelo impacto causado, José Eduardo Moniz realça o crescimento da ficção portuguesa, mérito da TVI, mas também aponta os telefilmes, mérito da SIC.

Joaquim Oliveira recorda que a concorrência fez com que a qualidade técnica dos programas aumentasse, surgisse outro grau de exigência e outra linguagem mais moderna.

Mas um dos aspectos negativos da iniciativa privada, realça, é que os programas dominantes em horário nobre se caracterizam por valores bastante abastardados aos restantes países europeus; aí as pessoa tem mais por onde escolher.

A estratégia de confronto da SIC deitou por terra a hegemonia da RTP. A estação pública perdeu, na última década, uma das suas fontes de financiamento — a taxa — e viu outra — a publicidade — diminuída da RTP1 e cortada da RTP2.

Esta erosão dos rendimentos, aliada à instabilidade dos apoios estatais e à incapacidade de modernização da empresa, gerou uma situação financeira muito degradada e a precisar de urgente intervenção.

— “De um modo geral o serviço público não esteve à altura das exigências. Há uma falência irrecuperável da televisão pública”, lamenta Rui Cádima, presidente da Obercom, Observatório da Comunicação.

Os sucessivos governos — e as muitas administrações — não conseguiram travar a lenta queda da RTP e foram ziguezagueando em torno de um caminho para o serviço público. O debate continua aceso, uma década adepois da oferta televisiva se ter divercificado — não só em número de canais como de conteúdos –, tornando o telecomando um objeto indispensável.

Grelha da SIC de 6 de Outubro de 1992

15h58 _ABERTURA
16h30 _SIC NOTÍCIAS
16h34 _MTV _reportagens sobre os vídeo-clips e os últimos lançamentos discográficos no mercado internacional
17h35 _O QUINTETO DO LADO _série juvenil, onde a música se cruza com o drama e a comédia
18h00 _RESPONDER A LETRA _concurso para o fim de tarde, de segunda a sexta. Uma resposta ao “Roda da Sorte”, do Canal 1
18h30 _SIC NOTÍCIAS
18h40 _PLUMAS E PAETÊS _novela da Globo para concorrer com a telenovela “Cinzas”, da RTP
19h30 _PRAÇA PÚBLICA _espaço de informação para falar dos direitos dos cidadãos
20h00 _JORNAL DA NOITE
20h30 _TERESA BATISTA _série da Globo, adaptação do romance de Jorge Amado
21h20 _NOITE DE ESTRÉIA _”Guerra das Rosas”, filme de Danny de Vitto
23h30 _BENNY HILL _o regresso do humor britânico
24h00 _ÚLTIMO JORNAL

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*Texto de Sofia Rodrigues, originalmente publicado pelo jornal “Público” em 6 de outubro de 2002, data em que a SIC, primeiro canal privado português, comemorou dez anos de existência.

ANÁLISE

O futuro da televisão em jogo

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A TV norte-americana sempre serviu de parâmetro para que as TVs comerciais mundo a fora se guiassem no que diz respeito a tendências de consumo e audiência — se é que um não é sinônimo da outra!?

Pois bem. Não é de hoje que o Ibope das grandes redes americanas está em declínio. Como declarou o comediante Jay Leno recentemente, o sucesso de hoje equivale ao fracasso de (não muito) antigamente.

Jamais veremos números como os dos estrondosos ”Seinfeld”, “Friends” ou “ER” novamente, só para falar de alguns fenômenos da última década. Estes seriados, líderes de audiência, eram exibidos na TV aberta. Os sucessos de hoje — e com números bem mais modestos — estão, em sua maioria, na TV a cabo. Vide “The Sopranos”, “Mad Man” e ”Dragmet”.

Na semana passada a TV dos Estados Unidos ganhou uma nova leitura do que deverá ser o duelo em busca de telespectadores no chamado “futuro da televisão” (e ele está aí!). Pela primeira vez na hstória um jogo de futebol americano transmitido em um canal por cabo (ou seja, segmentado, de um gênero específico, neste caso ‘esporte’) bateu um jogo de futebol exibido em uma grande rede.

Enquanto na ESPN Packers vs. Vikings alcançou mais de 21,8 milhões de telespectadores, na NBC Indianapolis vs. Tenneesse não passou de 16 milhões,  atrás de “NCIS”, série de investigação a la “C.S.I.”, e da versão americana de “Dança dos Famosos”.

Mas não se engane. Esta nova tendência, dizem os especialistas, não significa que a TV vai acabar. Ela está apenas em transformação e deve crescer ainda mais, como afirma Jeffrey Cole que lidera um projeto mundial de estudos da internet e de celulares.

Segundo ele, as pessoas querem cada vez mais informação. E esporte também é informação. Fim apenas para os jornais, e mesmo assim os impressos. Mas esta é uma outra história.

TEMPO REAL

| Daniel Vasques |

Ao vivo da explosão em Santo André

Na TV, Record e Globo News (a Globo só exibe flashs nos intervalos da programação) enfrentam as mesmas dificuldades na cobertura da explosão em um bairro residencial em Santo André, no Grande ABC, SP: usam imagens de helicóptero que saem do ar o tempo inteiro e não conseguem manter contato telefônico com quem está no local. As ligações teimam em cair.

Ágil, a Record consegue colocar as informações no ar minutos antes da concorrência. Quem troca de canal percebe: a Globo está atrasada na cobertura. Um exemplo, o motivo da explosão. Na Record, Gottino trouxe primeiro a suspeita de que a ruptura de um cabo da rede elétrica teria motivado a detonação dos explosivos.

Mas ao que parece a audiência não correspondeu às expectativas. A Record acaba de suspender o Plantão de jornalismo.