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‘BRAZIL AVENUE’

| Daniel Vasques |

Globo mira mercado hispânico
e investe em coproduções

Foi “ablando español” que em 1973 Odorico Paraguaçu levou à Tele Doce do Uruguai a sua obsessão: inaugurar ”duela a quien duela” o cemitério de Sucupira. Era ”O Bem Amado”, da Globo, cavando o terreno do que viria a ser uma das principais fontes de renda da emissora nas décadas seguintes: o mercado internacional.

40 anos depois, a emissora coleciona sucessos como “Terra Nostra”, “Da Cor do Pecado” e “O Clone”, exibidas em dezenas de paises – clique aqui para ver as novelas mais vendidas para o exterior. Mas já não vende como antes. Outras gigantes da teledramaturgia mundial dominam o segmento, como a Televisa do México. Muito provavelmente beneficiada pelo idioma e narrativas de suas histórias universais.

Mas nem mesmo em Portugal, conectado ao Brasil pelo idioma, a vida tem sido fácil. Já vai longe o tempo em que as novelas brasileiras dominavam além-mar. Na SIC, emissora que mantém contrato de exclusividade com o canal da família Marinho, das seis novelas em exibição, apenas a metade é da Globo — “Fina Estampa”, “Avenida Brasil” e a reprise de “Páginas da Vida”.

Nem o sucesso recente de “Gabriela”, novela de maior audiência do lado de lá nos últimos dez anos, fez com que a SIC tirasse da pratileira títulos rescentes como “A Vida da Gente” e “Cordel Encantado”, ainda hoje inéditos no país. Ou ”Guerra dos Sexos” e “Aquele Beijo”, que mesmo com artistas portugueses no elenco, ficaram restritas a TV a cabo.

O PAÍS DO FUTEBOL

Produções recentes como ”Avenida Brasil” e “Cheias de Charme” continuam a receber o devido destaque em feiras internacionais como a Natpe, em Miami. Mas esbarram não só na dublagem – para atingir diferentes mercados, o espanhol muitas vezes é enfadonho – como nas diferenças culturais que fazem com que a maioria dos sucessos não ultrapasse o quintal de casa.

Apesar disso, externamente, as tramas brasileiras também são famosas por se transformarem em “obsessão nacional” como aponta o jornal “L.A. Times”, dos Estados Unidos. Em uma extensa reportagem, a publicação analisa o fenômeno “Avenida Brasil”, a começar pela presença da classe média nos núcleos centrais.

– “Nada chama mais a atenção do Brasil que suas telenovelas”, diz o texto. “Exceto talvez a Copa do Mundo, nada junta mais o país que seus dramas bem polidos de grande orçamento.”

EXPORTAÇÃO

E se reconhecimento é sinônimo de know-hall, a Globo sabe aproveitar isso melhor do que ninguém. Daí, foi um pulo para as coproduções internacionais.

A fórmula é simples: os roteiros e as marcas das novelas são vendidos juntos com um pacote de consultoria que inclui cenários, figurinos, texto e direção. Tudo é supervisionado. Até mesmo técnicas de interpretação. Ao comprador cabe adaptar o formato, contratar elenco e pagar pela produção. Algo semelhante ao que Televisa e Record colocaram em prática e com relativo sucesso até bem pouco tempo no Brasil com ”Bela, A Feia” e “Rebelde”.

Em Portugal ela começou a ser testada em 2011. Cansada de colecionar fracassos em sua teledramaturgia, a SIC decidiu firmar acordo com a Globo, parceira de longa data. Embora baseada em um argumento original, ”Laços de Sangue” contou com supervisão do autor Agnaldo Silva e de quebra faturou o Emmy Internacional de melhor novela.

Mas ainda faltava a liderança. E sem perder tempo, a emissora apostou em uma obra consagrada: o remake de “Dancin’Days”. A audiência foi nas alturas. Líder em todos os targets comercias, “Dancin`Days” acabou com a hegemonia das tramas da concorrente TVI. No último dia 13 alcançou mais de 1,8 milhão de telespectadores e 37% dos televisores ligados.

ERROS E ACERTOS

Parece simples, mas para chegar até aqui foi preciso testar a fórmula. E assimilar erros como os de  ”Vale Todo” (2002). A história da mãe traída pela filha, baseada no original de 1988, de Gilberto Braga, provocou rejeição no público latino da Telemundo, emissora dos Estados Unidos, e que costuma ver a figura materna com respeito e gratidão. Os relacionamentos extraconjugais também não cairam no gosto dos hispânicos. E a novela, inicialmente programada para durar seis meses, acabou encurtada em um terço.

Walter Negrão, que assumiu a adaptação do roteiro a partir do capítulo 30, acredita que a escolha de uma novela extremamente brasileira como “Vale Tudo” foi o principal erro.

– “Uma trama falada em espanhol que se passa no Rio de Janeiro causa um certo distanciamento. Se tivesse participado desde o início, teria ambientado a novel em Miami mesmo que as gravassões fossem aqui”, declara.

Uma correção que viria a ser feita anos mais tarde. Mesmo gravada na Colômbia, “El Clon” (2010) baseada no original de 2001 de Gloria Perez, se passava entre Miami e Marrocos. A história do amor impossível entre Lucas e Jade também era extremamente universal. A novela foi um sucesso e chegou a ser prolongada ficando mais de oito meses no ar. Além dos Estados Unidos, foi exibida em praticamente toda a América Latica, inclusive no México pela Televisa.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Se o futuro está nas coproduções, não resta dúvida de que o gênero é o principal responsável pela perpetuação da espécie. Prova disso é que novas adaptações estão por vir. Ou alguém duvida que além de Pererón e T.C. Palmer, em breve, os gringos estarão encantados pelas loucuras de Carmiña e os dramalhões de Mamá Lucinda?

– “Sírvame, zorra!”