Arquivo da tag: Pantanal

MEMÓRIA

Rede Manchete, uma história
para não esquecer

1_5

Adolpho Bloch costumava dizer que em suas veias corria tinta de impressão. Era, acima de tudo, um gráfico. Com o sucesso obtido nessa atividade tornou-se um dos principais empresários da comunicação brasileira – e foi por aí que o desafio da mídia eletrônica entrou em sua vida.

A princípio, ele se recusava a idéia, alegando que já estava com mais de 70 anos, bem-sucedido nas artes gráficas e na editora. Contudo, a necessidade de se alinhar na mídia eletrônica obrigou-o a pleitar e obter a concessão para explorar cinco canais de TV que estavam em licitação.

A partir desse instante, todas as suas energias concentraram-se em montar a sua rede. E como não sabia fazer nada sem entusiasmo e competência, em pouco tempo adquiriu o equipamento mais sofisticado da época, tudo última geração, tornando a Rede Manchete a mais bem aparelhada do mercado.

Paralelamente, armou uma equipe de diretores, técnicos e artistas que, desde o dia da estréia, 5 de junho de 1983, tornou-se a segunda rede em audiência e faturamento, abrindo um mercado de trabalho que foi ampliando nos anos seguintes.

Era uma TV Classe A, com  o compromisso de elevar o padrão do entretenimento e da informação. O “Jornal da Manchete”, dirigido inicialmente por Moysés Weltman e Zevi Ghivelder, logo foi aclamado como o melhor da mídia brasileira, abrindo espaço condizente à notícia, deixando de ser mera sucessão de chamadas.

Por anos seguidos, o noticiário da Rede Manchete foi considerado pela crítica especializada como o melhor da TV brasileira, ganhando prêmios e sendo um referencial de qualidade e isenção. Na outra perna da programação, a prioridade foi criar programas de impacto no setor do divertimento. Uma jovem modelo, que habitualmente posava para as capas das revistas do grupo Bloch, foi escolhida para comandar o programa infantil das manhãs.

Não faltaram os entendidos que condenaram a idéia de tornar um de nossos símbolos sexuais a animadora de um programa de crianças. Acontece que Xuxa não apenas mudou a dinâmica desse tipo de programa: ela própria mudou e se tornou na personalidade feminina mais conhecida da atualidade brasileira.

A concorrência reagiu e Xuxa deixou um vazio logo preenchido por outra descoberta da Rede Manchete, uma menina com uma pinta na cocha que imediatamente se tornou líder do público infantil. Angélica deslanchou de forma fulminante e manteve aquilo que já era tradição na Manchete: criar uma atração nova e manter audiência no mesmo nível da antecessora.

Momento importante na história da Rede foi o carnaval de 1984, que inaugurou o Sambódromo do Rio de Janeiro. Aproveitando um erro de avaliação da concorrente principal, que não acreditava no sucesso da passarela nova, a TV Manchete deu um show de técnica e entusiasmo, ultrapassando pela primeira vez a liderança de pontos do Ibope.

Animado com a façanha, Adolpho decidiu criar o núcleo de telenovelas, que inicialmente não estava em suas cogitações.

Era uma jogada temerária uma vez que invadia o território mais forte e incontestável da líder do mercado. Era necessário criar um diferencial, tanto no visual como na história. Seguiram-se então três novelas de época que marcaram época na televisão brasileira: “A Marquesa de Santos”, “Dona Beija” e “Kananga do Japão”.

Nos momentos de pique, as três lideraram o Ibope e precederam “Pantanal”, que foi considerada a melhor novela do período e até hoje é citada, aqui e no exterior, como  uma das melhores realizações da teledramaturgia brasileira.

Tanto “Kananga” como “Pantanal” abriram de forma surpreendente o público das novelas. Gente que habitualmente não apreciava o gênero passou a se interessar pelos dois sucessos. O primeiro, com a estupenda realização do fundo histórico centrado nos anos 30.

Na semana em que foram exibidos os capítulos relativos ao caso de Olga Prestes, a liderança foi absoluta. Intelectuais, artistas e o próprio Luís Carlos Prestes comoveram-se com a novela.

No caso de “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa, com direção de Jayme Monjardim, foi criada uma nova estética para o gênero, com grandes planos externos pontuando uma história tipicamente brasileira.

1_8

Adolpho dava grande importância aos programas especiais e contratou uma turma independente, de peso, a trinca formada por Fernando Barbosa Lima, Roberto D’Ávila e Walter Salles. Foram produzidos programas de grande repercussão, como o especial dedicado ao Japão, de Waltinho Salles, onde o jovem diretor recebia seus primeiros prêmios e preparava o vôo para o cinema que o consagraria.

Roberto fez uma série de entrevistas que nunca se imaginavam possíveis na modorra jornalística até então existente. Entrevistas com Fidel Castro, Federico Fellini, Marcello Mastroianni, Gabriel Garcia Márquez e tantas outras imprimiram uma dimensão nova ao jornalismo televisivo.

Na parte política, além de documentários importantes sobre JK e Vargas, Manchete foi a primeira a cobrir os comícios pelas Diretas Já, desde o início daquele movimento que cresceu e, somente ao final, foi absorvido pelas concorrentes como um dos fatos mais emblemáticos de nossa recente história.

Na parte esportiva, Manchete cobriu todas as Olimpíadas, Copas do Mundo e torneios realizados durante o período. Enviou grandes equipes ao exterior. Deu especial ênfase a cobertura do tênis, esporte até então desprezado pela mídia nacional. Gustavo Kuerten, hoje em ascensão mundial, teve o início de sua popularidade garantido pela Rede Manchete.

A situação nacional, contudo, apresentava sinais de turbulência no setor financeiro. Cinco planos econômicos e cinco moedas diversas sucederam-se de forma abrupta, desestabilizando empresas e impedindo projetos de longo alcance.

Adolpho perdeu o entusiasmo em operar em um cenário que ele não aceitava. Sua força era o trabalho, a competência, o otimismo. Não entendia a especulação, a política dos juros altos. Embora gostando de sua TV ele procurou vende-la, para se dedicar apenas à editora. Vendeu a Rede a um grupo que não honrou o protocolo de intenção da compra – o que lhe causou prejuízos adicionais.

Obteve da justiça a gestão da Rede e voltou a trabalhar nela com o empenho possível. Com 87 anos, a saúde em declínio, ele ainda conseguiu sucessos, investiu em um grande terreno em Maricá, onde construiu uma incrível cidade cenográfica que serviu de cenário para sua última história, a novela “”Xica da Silva”.

Com sua morte, em1995, aRede Manchete perdeu seu líder, o seu centro de gravidade. Com a aprovação do governo, e dentro das normas legais, seus sucessores preferiram passar a concessão dos cinco canais a terceiros, decididos a dar continuidade ao trabalho de Adolpho na editora que brevemente começará uma fase de modernização e ampliação de objetivos.

A Rede Manchete, que agora passa a ser operada por novos donos, soube ser um dos grandes momentos que marcaram a história do nosso tempo.

——–

Texto de Carlos Heitor Cony, publicado na “Revista Manchete”, em maio de 1999, após a transferência do controle acionário da Rede Manchete para o grupo TeleTV, de Amílcare Dallevo Jr., atual RedeTV!.